Códigos de Convivência
A interação com o mundo é governada por códigos implícitos e explícitos, ensinados em casa e na escola
As férias escolares vão chegando ao fim. Fevereiro vem com as inevitáveis e repetitivas questões dos alunos: com que professora vou cair? Em que classe vou parar? Vou ficar com os colegas de que gosto.
O importante de todas essas dúvidas é que elas acenam para o fato de a criança conhecer a escola que a espera. (A não ser que ela esteja mudando de escola.)
A volta à escola não é apenas um retorno a uma certa rotina. É também ganhar de volta a vida entre os pares: alunos, mestres e diretores.
Escola é um espaço restrito dentro de um grande espaço público que é a sociedade. Não é só a família e sua estrutura hierárquica que comandam fazeres e poderes. Junto com a escola, aparece o poder do Estado, que parece mandar em todos e a quem todos obedecem.
Eis aí um primeiro contato com a força virtual que tem representantes ao nosso lado, mas não tem forma.
É na escola que se formalizam as ligações com a nação, com a língua, onde se aprende a distinguir entre todas as coisas que libertam, garantem e limitam.
Por exemplo: a criança pode dizer “você”, “senhora”, “tia” – mas quando deve usar tal e tal chamamento?
São milhares de pequenos detalhes, códigos implícitos ou explícitos que governam a interação com o mundo.
O uso da percepção é vital para acertar o bem viver no mundo. O código da escola é diferente do código de casa/família que é diferente dos códigos que governam outros locais públicos.
Fevereiro é o tempo de voltar das férias, dos resorts, dos acampamentos, de todos os espaços públicos aos quais o aluno não tem acesso no tempo de aula.
A casa onde se vive com a família é diferente de lugares públicos. Nela não se troca usando dinheiro como intermediário. Mesmo na cantina da escola, ou no pipoqueiro, o dinheiro ou o fiado é sempre presente.
Na escola, a existência é autônoma, mas com origem familiar. Na escola, o aluno é nome, sobrenome, endereço. É um “eu” público – marca registrada que vai permitir uma cidadania, fazer parte de um todo, sem que, por isso, ele se sinta aniquilado.
É possível agüentar o silêncio e escolher a opinião pública à qual se que aderir.
Sobressair-se do impessoal, processo cujo primeiro passo é dado na escola, muitas vezes é insensato, porém necessário. É cauteloso perceber sempre (voltamos à importância da percepção) os códigos de conduta social, especialmente aqueles que não são explicitados.
Cabe à escola e à família, nos primeiros anos de vida, ensinar mais do que códigos: ensinar a perceber códigos.
Para a criança que ainda não formou o seu “eu”, é difícil perceber qual o comportamento adequado num lugar público que não conhece.
Para a criança, o anonimato é doloroso. Por isso é tão importante para ela escutar sua própria voz. Daí a algazarra comum das crianças nos lugares públicos.
Fonte: Folha de S.Paulo – Equilíbrio – 18 de Janeiro de 2011. Anna Veronica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
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